Carta | 36 – O trabalho e a questão social

A Carta Social e do Trabalho é uma publicação aberta a análises referentes a uma diversidade de temas, priorizando o mundo do trabalho e suas interfaces com a sociedade, assim como o campo das respectivas políticas públicas, com especial atenção para o Brasil e suas múltiplas regiões. Os textos publicados na presente edição trazem um amplo espectro de preocupações e buscam colaborar para reflexões sobre questões que fazem parte do debate público contemporâneo.

 

No artigo que abre a edição, Marcelo Weishaupt Proni oferece uma visão panorâmica da questão social no Brasil a partir da identificação das suas principais dimensões, entendendo a pobreza como fenômeno multidimensional resultante de distintas desigualdades sociais. O texto demonstra que as desigualdades sociais se mantiveram muito elevadas no Brasil, mesmo após um período de crescimento econômico, evolução positiva do mercado de trabalho e melhoria das condições de vida da população, e argumenta que a recente recessão econômica e o redirecionamento das políticas sociais reverteram aquelas tendências, precarizando o mercado de trabalho e ampliando a vulnerabilidade social.

 

Dessa forma, coloca em discussão o papel do Estado no enfrentamento da questão social e indica um conjunto amplo de políticas públicas necessárias para a superação dos problemas apontados.

 

O artigo seguinte, assinado por Tiago Oliveira, busca explicitar a fragilidade do processo de recuperação do mercado de trabalho no Brasil no ano de 2017, após o forte impacto causado pela recessão econômica entre 2015 e 2016. A análise enfatiza a relação entre as trajetórias do desemprego e do emprego formal com base em indicadores selecionados. O autor argumenta, ao final, que as tendências em curso apontam para um padrão de desenvolvimento econômico fundado na geração de empregos precários e de baixos salários, abortando a possibilidade de um projeto nacional capaz de assegurar um patamar digno de bem-estar para os trabalhadores.

 

No terceiro artigo, intitulado “Três anos de perdas e retrocessos para as mulheres no mercado do trabalho”, Marilane Oliveira Teixeira examina de que maneira a crise econômica recente afetou a inserção feminina no mercado de trabalho brasileiro, destacando a condição mais vulnerável das mulheres negras. Os indicadores usados na sua análise são: a composição da população economicamente ativa, a taxa de ocupação, a taxa de desocupação, a força de trabalho potencial, a taxa de informalidade, a distribuição dos ocupados por setor de atividade econômica, o rendimento médio mensal e a variação no número de microempreendedores individuais. Os dados da PNAD Contínua permitem evidenciar que houve perdas e retrocessos em relação à força de trabalho feminina no Brasil, prejudicando com mais intensidade as mulheres negras.

 

Na sequência, Thais Leite Galvão e Silvana Nunes de Queiroz analisam o desemprego dos jovens no Brasil e no estado do Ceará em dois momentos: 2004 e 2014.

 

Depois de ressaltar que os jovens são o grupo etário no qual as taxas de desemprego são mais elevadas, tanto na experiência internacional como especialmente no País, ressaltam a pressão exercida por esse grupo sobre o mercado de trabalho. A pesquisa é resultante de monografia que utilizou microdados da PNAD para a elaboração de diversos indicadores, com destaque para o perfil sociodemográfico e socioeconômico dos jovens desempregados.

 

Ao final, destacam a importância do aperfeiçoamento de políticas públicas destinadas a combater o desemprego juvenil e a melhorar a inserção ocupacional dos jovens.

 

O quinto artigo, de autoria da socióloga Breilla Zanon, é fruto de pesquisas de campo destinadas a contribuir para o estudo de novas tendências profissionais e da mobilidade ocupacional. O texto propõe uma reflexão sobre a transformação das formas de organização do trabalho de profissionais sem vínculo de emprego que buscam compartilhar o local de trabalho, dando origem a um fenômeno relativamente novo: o coworking. A autora descreve o momento de seu surgimento no Vale do Silício e discute as transformações ocorridas em meio à profunda alteração da organização empresarial nas últimas décadas, que teve como consequência mudanças no perfil dos trabalhadores. Atualmente, esse compartilhamento do espaço de trabalho por diversos profissionais passou a ser entendido como a possibilidade de alcançar uma dinâmica de trabalho mais ágil e eficiente. O coworking busca potencializar um melhor rendimento a partir da formação e ampliação de uma networking de profissionais que além de dividirem custos operacionais compartilham conhecimentos, informações e experiências, fortalecendo o espírito de colaboração. Ao final, indaga se este modelo flexível de trabalho pode possibilitar uma ressignificação de situações de instabilidade no mercado de trabalho pelos trabalhadores que se transformam em “empreendedores”.

 

O sexto texto é uma resenha expandida da tese de doutorado de Maria Fernanda Godoy Cardoso de Melo, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento do Instituto de Economia da Unicamp. O objetivo do estudo “Relações público-privadas no sistema de saúde brasileiro” é discutir as relações entre o setor público e a iniciativa privada no sistema de saúde brasileiro decorrentes do padrão de financiamento vigente. A discussão remete para o debate mais geral a respeito das mudanças ocorridas em sistemas de saúde universais de países europeus num contexto de afirmação da agenda neoliberal.

 

Finalmente, esta edição se completa com uma seção especial, que traz uma reflexão sobre a reflexão de Keynes a respeito da possibilidade de que o progresso tecnológico e a consolidação da democracia resultassem, nos países desenvolvidos, em eliminação do desemprego involuntário, redução da jornada de trabalho e melhoria da distribuição de renda – ou seja, a possibilidade de que as gerações do futuro vivessem numa sociedade mais justa, mais livre, mais avançada. O texto, intitulado “As realidades econômicas dos netos de Keynes: obstáculos ao ideal keynesiano”, corresponde a uma versão revisada da monografia apresentada por Augusto Maganha Barbosa na conclusão do curso de graduação em Ciências Econômicas na Unicamp. O diálogo com autores contemporâneos coloca em evidência os motivos que levaram o prognóstico de Keynes a não se realizar e reforçam a necessidade de renovar a utopia de uma sociabilidade moderna que não seja comandada pela lógica do mercado, mas sim pelos princípios e valores que asseguram uma “vida boa”.

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Boa leitura!
Os editores

 

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