Foto: Marcello Casal Jr.

Assim é (se lhe parece)*

Luiz G. Belluzzo e Gabriel Galípolo | Publicado no Valor Econômico

Informa o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos: em março foram criados 215 mil empregos, um tanto acima das previsões que apostavam em 213 mil. Bom resultado.

Alguém curioso, outrora alcunhado xereta, poderia bisbilhotar a distribuição setorial dos empregos criados. Encontraria um quadro menos animador: Educação e Saúde: 51 mil; Varejo: 48 mil; Lazer: 40 mil. Aproximadamente dois terços de todos os empregos criados são ocupados por trabalhadores que recebem salário mínimo. Nas ocupações de Lazer há registros de horistas que ganham merreca para desfilarem fantasiados de Mickey, Minnie, Pateta, Pluto e outras criações do finado Walt Disney. São autores que encontraram seus personagens em Orlando.

Ao anunciar os resultados o secretário do Trabalho, Thomas Perez, lamentou: em suas andanças pelo país encontrou “pessoas trabalhando duro, mas não remuneradas justamente. Elas mal conseguem se manter e muito menos avançar. Em março os rendimentos horários cresceram 7 cents. Mas a tendência ao achatamento dos salários antecede por muitas décadas a Grande Recessão”.

Desemprego aberto e disfarçado, precarização e concentração de renda cresceram no mundo abastado

No dia 28 de fevereiro, Robert Reich, secretário de Trabalho no governo Clinton, publicou uma carta aberta aos republicanos, endereçando-a aos capitães da indústria americana e titãs de Wall Street que financiam o partido: “Você se esqueceu que os seus trabalhadores são também consumidores. Assim, ao mesmo tempo em que você empurrou os salários para baixo, também espremeu seus consumidores, tão apertados que eles dificilmente podem comprar o que você vende”.

Provavelmente em vão, Reich tenta explicar a gregos e troianos a descoberta de Henry Ford no início do século XX. Ford entendeu que os salários, ademais de custo para as empresas, são também fonte de demanda para seus automóveis e outros badulaques. Compreendeu que a formação da renda e da demanda agregadas dependem da disposição de gasto dos empresários com salários e outros meios de produção que também empregam assalariados. Ao decidir gastar com o pagamento de salários e colocar sua capacidade produtiva em operação ou decidir ampliá-la, o coletivo empresarial avalia a perspectiva de retorno de seu dispêndio imaginando o dispêndio dos demais.

Até meados dos anos 70 do século passado, as economias desenvolvidas prosperaram à sombra do fordismo, em um ambiente de ganhos de produtividade, sistemas de crédito direcionados para o investimento, aumento dos salários reais, redução das desigualdades e ampliação dos direitos sociais.

A partir dos anos 80, a liberalização das contas de capital, a desregulamentação financeira e comercial revigoraram a vocação universalista das empresas americanas. No afã de reduzir os custos salariais e escapar do dólar valorizado, o deslocamento “competitivo” da produção manufatureira americana buscou as regiões em que prevaleciam baixos salários, câmbio desvalorizado e perspectivas de crescimento acelerado.

Esse movimento promoveu a “arbitragem” com os custos salariais à escala mundial, estimulou a flexibilização das relações de trabalho nos países desenvolvidos e subordinou a renda das famílias ao aumento das horas trabalhadas. O desemprego aberto e disfarçado, a precarização e a concentração de renda cresceram no mundo abastado. A Oxfam afirma que entre 1978 e 2014 o salário típico de um trabalhador americano cresceu apenas 11%. Submetidas à lenta evolução dos rendimentos, as famílias sustentaram a expansão do consumo nas bolhas de crédito.

No outro lado do mundo, as lideranças chinesas se valeram da “abertura” da economia ao investimento estrangeiro ávido em aproveitar a oferta abundante de mão de obra. Os chineses apostaram na combinação favorável entre câmbio real competitivo, juros baixos para empreender estratégias nacionais de investimento em infraestrutura, absorção de tecnologia com excepcionais ganhos de escala e de escopo, adensamento das cadeias industriais e crescimento das exportações.

Os professores Chandrasekhar e Jayati Ghosh, apoiados em dados do World Economic Outlook do FMI de outubro de 2015, revelam a queda na participação das economias avançadas de 83% para 60% nas últimas três décadas. O grosso dessa mudança ocorreu entre 2002 e 2013, quando a participação caiu de 80% para 62%. A parcela relevante dessa mudança é devida ao aumento da participação da China, de 3% para 15%, que explica 87% da queda na participação das economias avançadas no período entre 1980 a 2015.

O livro “China versus West”, de Ivan Tselichtchev, dá a dimensão da transformação ocorrida. Nos anos 1980 a economia chinesa detinha os mesmos 1% do Brasil de participação no comércio mundial, em 2010 sua participação saltou para 10,4%, contra 8,4% dos EUA, 8,3% da Alemanha. Durante a primeira década do novo milênio a taxa de crescimento média anual da economia chinesa foi de 10,5%, contra 1,7% dos EUA e 0,9% da Alemanha. Ao final da década a China respondia por 42% da produção mundial de televisores a cores, 67% dos produtos de vídeo, 53% dos telefones móveis, 97% dos PCs, e 62% das câmeras digitais.

Ao contrário do que pregam muitos, as elevadas taxas de investimento e crescimento da China não foram impulsionadas pelo perfil “poupador” de seu povo. Se esse fosse o caso, o Japão e a Europa de Mario Draghi estariam em expansão e não penalizando os “virtuosos poupadores” com juros negativos para escapar da apatia econômica.

Os danos da virtude talvez expliquem o surto de populismo da revista “The Economist”, na edição de 19/02/2016. Nessa edição da revista foram apresentadas subversivas propostas para sacudir as economias letárgicas: “passar por cima dos bancos e mercados financeiros e botar dinheiro fresco diretamente no bolso das pessoas (…) Encorajando-as a gastar e não poupar” ou “ganhos salariais para gerar uma espiral salários-preços”.

No dia 30 de março foi publicado nas páginas desse jornal matéria de Sarah O’Connor, destacando que governos em muitos países desenvolvidos estão recorrendo a políticas de salário mínimo para tentar atacar a desigualdade e o crescimento anêmico dos salários. No Reino Unido, os salários dos trabalhadores de baixa renda subirão quatro vezes mais rápido que o salário médio neste ano; a Alemanha introduziu, em 2015, seu primeiro salário mínimo na história; o premiê japonês, Shinzo Abe, defendeu aumentos de 3% ao ano para o salário mínimo.

Populistas.

* (Homenagem a Luigi Pirandello)

(1) – Luiz Gonzaga Belluzzo, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists.

(2) – Gabriel Galípolo, professor do Depto. de Economia da PUC/SP, é sócio da Galípolo Consultoria

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