O impacto da Covid-19 no emprego

Do Instituto de Estudos Para o Desenvolvimento Industrial (IEDI)

Os dados da PNAD Contínua divulgados hoje pelo IBGE, ao cobrir o trimestre de abril a junho de 2020, capta integralmente os efeitos da pandemia de Covid-19 sobre o emprego no país. A despeito de todas as ações adotadas pelo governo para amortecer o choque, o número de ocupados caiu para o patamar mais baixo da série histórica e a taxa de desemprego foi a mais alta para este período do ano.

O total de ocupados chegou ao nível de 83,3 milhões de pessoas no 2º trim/20, o que significa uma queda de -10,7% frente ao mesmo período do ano passado. Para se ter uma ideia, o pior momento do emprego devido à crise econômica de 2015/16 foi atingido no 1º trim/17, com 88,6 milhões de ocupados.

A taxa de desemprego, por sua vez, atingiu 13,3% neste trimestre de pandemia, um nível muito próximo daquele do 2º trim/17 (13%). Isso, porém, porque muitos daqueles que ficaram desempregados ainda não estão buscando um reposicionamento, devido ao isolamento social, à não abertura de vagas pelas empresas ou porque já tentaram e não conseguiram. Sinal disto é o desalento, que atingiu um patamar recorde: 5,7 milhões de pessoas e alta de +16,5% ante o 2º trim/19.

Como era de se esperar, as maiores perdas na ocupação ocorreram em posições do mercado informal de trabalho. As variações frente ao mesmo período do ano anterior, a seguir, mostram que trabalho sem carteira e trabalho doméstico, que na maioria dos casos é informal, registraram quedas duas vezes mais intensas que o total da ocupação.

 •  Ocupação total: +2,0% no 4º trim/19; +0,4% no 1º trim/20 e -10,7% no 2º trim/20;

 •  Ocupação com carteira: +2,2%; +0,5% e -9,2%, respectivamente;

 •  Ocupação sem carteira: +3,2%; -0,9% e -24,9%;

 •  Trabalho doméstico: +1,6%; -2,2% e -24,6%;

 •  Trabalho por conta própria: +3,3%; +1,7% e -10,3%, respectivamente.

Aqueles que trabalham por conta própria caíram em ritmo semelhante ao total geral da ocupação e mesmo as posições mais estáveis, como o trabalho com carteira assinada, não ficaram muita atrás. No primeiro caso a variação foi de -10,3% e no segundo caso de -9,2%. A ocupação como empregador, por sua vez, caiu -9,5% ante o mesmo período do ano passado.

Setorialmente, as maiores perdas de ocupação foram registradas por alojamento e alimentação (-26,1%) e serviços domésticos (-24,7%), mas construção (-19,4%), comércio (-13%) e outros serviços (-17,5%) também recuaram mais que a ocupação total. Como estes postos de trabalho tendem a ser ocupados pelas parcelas de menor renda da população, a crise de Covid-19 deve apresentar consequências expressivas sobre a desigualdade de renda no país.

Atividades que costumam empregar com carteira assinada e pagar maiores salários caíram menos do que as anteriores. É o caso da indústria, cuja ocupação variou em linha com o total geral, registrando -10,5% frente ao 2º trim/19. Resultado pior do que este só havia sido obtido no 2º trim/16 (-10,9%). É o caso também dos serviços de informação, comunicação, financeiros, profissionais, que caíram apenas -4,2% devido sua maior adaptabilidade ao teletrabalho.

Nem o setor da agropecuária, que tem conseguido driblar a crise da Covid-19 em função da essencialidade de seus produtos e da obtenção de um aumento importante da safra, deixou de registrar corte de postos de trabalho. No 2º trim/20, sua ocupação caiu -7,9% ante o mesmo período do ano anterior. Este foi o quarto trimestre seguido de resultados negativos.

Com tamanhas reduções na ocupação, a massa de rendimentos do trabalho, que já havia dado sinais de desaceleração no primeiro trimestre do ano, encolheu em abr-jun/20 se comparado com o mesmo período do ano anterior. Tomados os rendimentos efetivamente recebidos, que melhor reflete o quadro de crise da Covid-19, o recuo da massa de rendimentos reais foi de -11,8%.

Cabe lembrar que esta evolução da massa de rendimentos do trabalho não considera as transferências de renda dos programas emergenciais do governo. Segundo estimativas do IPEA, a partir de dados até o trimestre findo em maio de 2020, o Auxílio Emergencial foi capaz de compensar cerca de 45% do impacto da Covid-19 sobre a massa de rendimentos, em função da perda de remuneração dos que permaneceram empregados e da queda da ocupação.

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